quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

As organizações no ciberespaço: o caso da estruturação e da manutenção de uma comunidade virtual não-monetária


(Dissertação de mestrado)
Este trabalho tem por objetivo analisar a estruturação e a manutenção de uma comunidade virtual não-monetária - a Wikipédia lusófona , em consonância com os modelos organizacionais existentes. Com base em um norteamento teórico sobre algumas das mais influentes forças que atuam na sociedade, o trabalho segue de maneira qualitativa utilizando o método do estudo de caso, com o auxílio de observação, entrevistas e questionários como instrumentos de coleta e que foram aplicados aos integrantes e mantenedores da organização, de acordo com uma amostragem qualitativa. Os resultados obtidos indicam evidências de algumas teorias pré-concebidas e suas novas dimensões no contexto do ciberespaço. Há suposições da existência de um opinião pública interna que pode influir no sistema político tradicional. É possível observar uma relação de trocas entre o trabalho do membro da comunidade por necessidades pessoais. Ainda, se sugere que há uma espécie de mercado nessa organização, apesar de não existir intermediação financeira. Outra característica remete ao fato dos membros da comunidade arcarem com os custos transacionais do projeto. Para concluir, se verifica que o trabalho que mantém a organização pode ser uma base para analisar todos os modelos organizacionais em um único feixe teórico.

Download em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/96/96132/tde-28012009-131500/

Pensar Livre (2006)



O SESC Ribeirão Preto apresentou, nos dias 23, 24 e 25 de maio de 2006, o projeto Pensar Livre - Cultura e Software Livre, encontro de instituições, pesquisadores e ativistas para popularização dos softwares livres como recursos de democratização do conhecimento e da cultura. O projeto Pensar Livre ofereceu a todos uma oportunidade de raciocinar de forma alternativa, imaginando um mundo no qual as máquinas e suas interfaces de controle deixem de ser ameaças controladas por poucos para se converter, definitivamente, em aliadas na criação de uma comunidade organizada em torno da livre circulação de idéias. Além da programação com performances e debates, foi lançado o catálogo Pensar Livre, acompanhado de um CD com uma amostra livre dos aplicativos disponíveis como alternativa aos programas proprietários e à prática da pirataria. Dentre os palestrantes estiveram, Carolina Rossini (FGV-Rio), B. Negão (músico) e Sérgio Amadeu da Silveira (Cásper).

Download do catálogo e áudio das palestras em: http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/pensar/link.html

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Sobre leões e gnus (Ética: do ecossistema à razão).


Na minha opinião, a questão mais interessante que surge no momento quando se vai tratar de ética concerne à sua relatividade, um exemplo sintético para elucidar esse fato pode ser observado ao analisar que ética do leão é diferente da ética do gnu. Para o leão é ético comer o gnu, pois se trata da sua sobrevivência, por outro lado o gnu não possui a mesma visão deste processo. Falo aqui de uma ética normativa que se difencia da moral exatamente por tal relatividade que pretendo explorar.
De maneira análoga, a ética das organizações pode se chocar com a das pessoas que a integram. O que é melhor para uma organização nem sempre será o melhor quem está nela, sendo que o inverso também é verdade. Assim, temos um dos maiores dilemas que nortearam – e ainda norteiam – a existência contemporânea, a responsabilidade ética. Ao se tratar de seres irracionais – como o leão e o gnu – é facilmente aceitável a hipótese de que a ética do ecossistema biológico deverá prevalecer sobre os conceitos das espécies. O ato de o leão comer o gnu é um mecanismo de equilíbrio natural que faz parte da vida e garante a perpetuação de todo o ecossistema - isso inclui a perpetuação dos gnus. Nesse sentido, é até possível verificar que, sob a ótica do ecossistema, é bom para o gnu ser comido pelo leão. Entretanto, a ética do ecossistema ainda permite o canibalismo em nome da sobrevivência da espécie. Se algum dia faltarem os gnus, o leão possuirá licença ética para se alimentar de seus pares. Essa afirmação é baseada apenas na lógica ética, talvez não haja embasamento empírico na biologia da espécie.
Por outro lado, o homem – ser racional – há tempos rompeu com a ética do ecossistema. A partir do momento que criou a primeira estrutura, além daquela enviada por “Deus”, alterou significativamente a noção sobre a ética. Até então, somente “Deus” possuía o dom de criar estruturas e, portanto, o ecossistema era sustentável.
Quando o homem se torna racional passa a ter dons divinos, por conseqüência, assume a ética divina, uma ética que lhe permite criar e destruir estruturas pensando unicamente em seu bem-estar ou, para ser mais específico, visando aumentar sua existência. Essa é, portanto, a ética racional. É Independente do ecossistema, pois é estruturadora.
Portanto, as organizações – estruturas criadas pelo homem – são regidas por essa ética racional e isso implica no fato de não poderem assumir uma ética própria. A ética das organizações deve ser a ética do homem, jamais a ética do ecossistema. Caso contrário há um retrocesso evolutivo. Os leões, agora, criam os gnus para não haver em hipótese alguma o canibalismo, pois, entre os deuses, predar um par é antiético. Vale saber que o processo de criar gnus inclui transformar leões em gnus, é aí que residirá o problema fundamental, ou seja, o homem usa seu poder estruturador para transformar ele próprio em estrutura.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

E agora, Josés?




"A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, Você?"

Quem acompanha a cena político-partidária de Ribeirão Preto percebeu algo estranho com a não homologação da candidatura a prefeito vislumbrada pelo acadêmico da USP, José Aparecido. Certamente, a reação dos mais atentos foi uma reflexão sobre a eventual ingenuidade do professor e, ainda, chegaram ao ponto de evocar "O Príncipe" de Maquiavel para explicar toda a sujeira envolvida num processo de candidatura política. Embora a figura do professor seja digna de inúmeros elogios é preciso observar o que ele representava. José era mais que o Aparecido, José era o cientista, José era o acadêmico. A candidatura do Aparecido era a candidatura da ciência, uma candidatura dos Josés: Josés metódicos, Josés éticos, Josés pragmáticos. A traição ao Aparecido foi um aviso do sistema político ribeiraopretano ao mundo acadêmico: “Fiquem em suas escrivaninhas, aqui nós ditamos as regras!”. Um alerta para que os Josés permaneçam em seu mundo empoeirado e cheio de traças. Uma afronta da elite política à elite intelectual. Agora só resta saber se haverá revide e se ocorrerá em tempo. Parafraseando Drummond: Vocês marcham, Josés! Josés, para onde?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Teoria ou prática?



Na sociedade atual é muito comum observar as definições sobre o teórico e o prático com sentidos opostos, ser teórico é muitas vezes tido como algo pejorativo ao passo que ser prático é uma qualidade valorada. Por outro lado, a prática não costuma se questionar - existe com fim em si mesma -, enquanto a teoria se questiona tanto que não chega ao fim. Afinal, prática ou teoria, qual é a melhor maneira para tratar o conhecimento? Tenho certeza que muitos já se indagaram sobre isso, eu inclusive. Essa questão se torna mais freqüente às vésperas da defesa da minha dissertação de mestrado, sobretudo quando me solicitam para elaborar algumas linhas sobre a situação. A teoria é um conhecimento especulativo, puramente racional. É a ação de olhar, examinar e especular, porém sem fazer. Já a prática é a realização de uma teoria concretamente. Nesse sentido, não existe teoria sem prática caso contrário se torna uma hipótese, algo que só existe na especulação. Ora, se a prática é a concretização do teórico então qual o motivo de alguém se interessar pela teoria? Especular, olhar, examinar não é coisa de gente preguiçosa? Realmente, deve ser. Só um preguiçoso gastaria seu tempo questionando aquilo que é feito em busca torná-lo mais simples, rápido e barato. Portanto, teoria e prática são partes de um mesmo fenômeno. A teoria sem prática vira preguiça, enquanto a prática fica mais cara sem teoria.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Ideologia, eu não quero uma para viver!



Cazuza estava errado ao pedir uma ideologia para viver, pois esta já existia e limitava a sua existência. No texto “O Terceiro Setor não existe!” elaborei uma conceitualização sobre a Natureza das Organizações e as classifiquei como organizações-estado, aquelas mantidas através da força e da imposição, e organizações-sociedade, aquelas mantidas pela vontade de liberdade. Porém, após uma reflexão mais complexa sobre o assunto foi possível verificar que ainda há um outro plano para a classificação das organizações. Ao falar que são essas as duas formas possíveis da sociedade se organizar fica implícito, por conseqüência, que todas as organizações são ideológicas. Ou seja, acabei impondo uma dicotomia entre liberdade e coerção no momento de cooptar o trabalho que manterá as organizações. De fato isso foi uma limitação conceitual - apesar que o Terceiro Setor continua não existindo -, pois ao se analisar as organizações que compõem uma sociedade ideológica - no caso a sociedade capitalista ideológica – é fácil observar que, em essência, todas se encaixarão nesse duo. Assim, aquela classificação continua valendo mas somente para analisar o plano contemporâneo, onde as organizações existem em função da ideologia que elas emanam. Neste momento é importante ressaltar que a ideologia influi na capacidade de inflexão sobre o que é bom ou mau, forte ou fraco, livre ou escravo. No entanto, enquanto houver uma força influente na percepção, esta não será racionalmente livre. Para tornar mais simples vou utilizar dois exemplos aparentemente opostos e que já analisei em outro texto: o Estado e o sistema operacional Linux (para representar a Sociedade). O Estado faz o uso da ideologia da segurança e que é mantida por uma estrutura de força. Para crescer garante uma pátria, a propriedade privada, enfim os direitos em geral e, desta forma, oferece a segurança aos cidadãos por meio da coação fisica. Para tanto, constitui os poderes, elabora as leis, institui a polícia e as forças armadas na direção de gerar a segurança que prometeu aos cidadãos. Desta forma, é mantido em função dos impostos – uma parcela do trabalho – que são cobrados pelas estruturas coercitivas. Apesar de usar a força para continuar a existir, é a ideologia em relação à segurança que garante sua perpetuação. Por outro lado, o sistema operacional Linux é mantido pela crença de seus contribuidores na liberdade e que é instituída pela licença autoral do software livre. O Linux cresce em função dos milhares de desenvolvedores que doam uma parcela do seu trabalho para manter o produto, uma vez que acreditam fazer parte de um projeto global, sem donos e livre. Aparentemente, não há nada de ruim nessa idéia, mas é só aparência, pois esta organização só existe em função da força exercida pela ideologia da liberdade na percebeção sobre o que é bom ou mau, uma coerção moral na racionalidade dos colaboradores. Tanto a ideologia do Estado - advinda da segurança - quanto a da Sociedade - advinda da libertação e observada no Linux – estabelecem uma relação de coerção que retira a real liberdade do indivíduo, as escolhas não são realizadas de forma racional, são influenciadas pela ideologia. Portanto, enquanto houver ideologia, necessariamente, existirá estrutura de força que limita a liberdade racional. Entretanto, ainda é preciso verificar que a ideologia age, ou seja, a idéia é agente e se impõe sobre um paciente, no caso o ser. As organizações e estruturas em geral sempre serão resultados de uma idéia e, portanto, emanarão ideologia que agirá ou não no ser. É o ser quem deve estar preparado para absorver as idéias sem ser paciente de suas forças.


Resumo da história: Fica claro o engano de Cazuza ao clamar por ideologia. O racional seria: “Ideologia, eu não quero uma para viver!” ou, um pouco além, enquanto houver ideologia não haverá poesia.